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Costa Cálida é o nome com que se conhece o litoral da Região de Múrcia, uma faixa mediterrânica de cerca de 250 quilómetros entre a Comunitat Valenciana e a Andaluzia. O nome não é força de expressão: esta é uma das zonas mais secas e soalheiras da Europa, com um clima semiárido em que a chuva mal ultrapassa os 300 mm anuais em muitos pontos e o sol domina a maior parte do calendário. Cartagena, com os seus três mil anos de camadas históricas, é a porta de entrada mais evidente na região, mas o litoral estende-se bem para além dela, e o interior próximo tem tanto que contar quanto a costa.
O Mar Menor e as vilas da orla
O traço mais distintivo da geografia local é o Mar Menor, a maior lagoa salgada da Europa, separada do Mediterrâneo por La Manga, um cordão de areia de 21 quilómetros ocupado desde os anos 1960 e 1970 por uma urbanização turística densa e característica. As águas do Mar Menor são mais calmas e mais quentes do que as do mar aberto, o que historicamente atraiu turismo familiar e tratamentos com os lodos da lagoa — mas o ecossistema atravessa desde 2016 uma crise séria de eutrofização, ligada ao escoamento agrícola do Campo de Cartagena, a planície irrigada que se estende a norte da cidade. À volta da lagoa ficam povoações como San Javier, Los Alcázares e San Pedro del Pinatar, esta última conhecida pelas suas salinas e parque natural. Mais a sul, já fora da influência do Mar Menor, a costa endurece-se em Mazarrón e Águilas, tramos menos urbanizados e mais próximos da paisagem árida que caracteriza o sueste espanhol.
Mineração, vinho e uma huerta antiga
O interior imediato guarda a outra metade da história da região. A Sierra Minera, entre Cartagena e La Unión, foi durante séculos uma das maiores zonas mineiras de chumbo e prata da Península, e é dessa riqueza do final do século XIX que vêm boa parte dos edifícios modernistas que hoje se veem em Cartagena. La Unión ficou também associada ao cante das minas, um estilo flamenco nascido entre mineiros, celebrado ainda hoje num festival anual de referência nacional. Mais para o interior, a Região de Múrcia é terra de vinho: as denominações de origem Jumilla, Yecla e Bullas assentam-se sobretudo na casta monastrell, adaptada a solos pobres e verões extremos. A huerta murciana, um sistema de regadio com raízes islâmicas, sustenta desde há séculos uma agricultura intensiva de hortícolas que faz da região um dos maiores exportadores de produtos frescos da Europa.
Na mesa
A cozinha da região reflete esse cruzamento entre mar e horta. O caldero, arroz cozinhado com peixe do Mar Menor e servido com aioli, é o prato mais associado à costa; o zarangollo, um refogado de courgette, cebola e ovo, e os michirones, favas guisadas com especiarias, vêm da tradição da huerta. Os paparajotes — folhas de limoeiro fritas em massa e polvilhadas com açúcar e canela — são a sobremesa mais típica. A Semana Santa é vivida com intensidade em toda a região, com destaque para as procissões de Cartagena e de Lorca, cidade histórica no interior que vale visita por direito próprio.