Caminho de Santiago: Português, Via da Prata e Lugo
Como chegar a Santiago a pé pelo Caminho Português, pela Via da Prata (Ourense) ou pelo Primitivo (Lugo): credencial, Compostela e a regra dos 100 km.
Quase todo caminhante de Santiago chega ao mesmo lugar, a Praça do Obradoiro, e quase ninguém parte do mesmo ponto. É por isso que as perguntas práticas mudam de um Caminho para outro: onde pegar a credencial, a partir de que cidade os quilômetros contam para a Compostela, o que se carimba e quando.
Este artigo segue três trajetos bem menos concorridos do que o Francês, que passam por Tui, Ourense e Lugo: o Caminho Português, o Caminho Sanabrês (a variante galega da Via da Prata) e o Primitivo. Quem define a regra é sempre a Oficina del Peregrino, da catedral de Santiago.
O que a Oficina del Peregrino exige, em palavras simples
A Compostela é um documento em latim, entregue pela catedral, que atesta a peregrinação até o túmulo do Apóstolo. A Oficina explica que hoje ela é concedida a quem faz o percurso por motivo religioso ou espiritual, por uma das rotas oficiais. Quem faz o Caminho sem esse sentido pode pedir o Certificado de Distância, que registra o ponto e a data de partida, os quilômetros, a data de chegada e a rota.
Os critérios de distância, também segundo a Oficina:
- A pé ou a cavalo: 100 km contínuos em direção a Santiago, por um mesmo caminho oficial. A última etapa, no mínimo, é a imediatamente anterior à chegada à catedral.
- De bicicleta: 200 km, nas mesmas condições.
- Quem começa fora da Espanha: o trecho contínuo em território espanhol não pode ser menor que 70 km.
- Não se misturam rotas: escolhe-se um caminho oficial e segue-se por ele até o fim.
Se a pessoa fizer só o mínimo (100 ou 200 km), a Oficina pede carimbo no início e no fim de cada etapa, com a data, de modo que fique claro que o peregrino retomou o Caminho no mesmo lugar em que o deixou. É possível fazer o percurso em etapas espaçadas, desde que em ordem cronológica e geográfica.
A credencial
A credencial é um cartão de 16 páginas dobrado em sanfona, que serve para dormir nos albergues e, no fim, para provar a passagem e pedir a Compostela. Ela se obtém pessoalmente na Oficina del Peregrino ou em instituições autorizadas pela catedral, como paróquias, associações de Amigos do Caminho, albergues e confrarias, na Espanha e fora dela. Para quem mora no Brasil ou em Portugal, o site da Oficina tem as seções “Obtén tu credencial fuera de España” e a lista de associações pelo mundo. Confirme lá qual delas é a mais próxima: este guia não tem como garantir que uma associação específica esteja autorizada.
Os carimbos vêm dos albergues, mas também de paróquias, mosteiros, catedrais, pousadas e prefeituras.
Caminho Português: de Porto ou de Tui
O Caminho Português parte de Lisboa ou do Porto. Pelas estatísticas de 2025 da Oficina do Peregrino, foi a segunda rota mais usada depois do Francês, com 19% dos peregrinos. A maioria dos que receberam o certificado começou em Tui (41%), no Porto (26%) ou em Valença (18%).
A variante da costa parte também do Porto ou de Vigo (21%) ou Baiona (12%), e ficou em terceiro lugar em 2025, com 17%. Entre quem saiu do Porto pela costa, 55% passou por Tui e 45% por Vigo.
As distâncias ajudam a escolher o ponto de partida. O Caminho Português tem 260 km a partir do Porto e 610 km a partir de Lisboa. O central cruza o Minho entre Valença e Tui, por pontes internacionais, e dali são 108 km a pé até Santiago, o bastante para a Compostela. A variante da costa atravessa o rio de barco, de Caminha para A Guarda, e se junta ao traçado central em Redondela. Depois vêm Pontevedra e, passado o rio Ulla, Padrón, a 25 km da catedral.
Em Pontevedra está a igreja da Virgem Peregrina, barroca e de planta circular, em forma de concha. De carro, de Porto a Santiago são 205 km, segundo o painel do guia.
Via da Prata e Ourense
A Via da Prata liga Sevilha a Astorga, de onde se pega o Caminho Francês até Santiago. O Caminho Sanabrês nasceu como atalho dessa rota: a partir de Granja de Moreruela, em Zamora, cruza a Sanábria e chega a Verín ou a Ourense, onde se junta ao Caminho Português do interior.
Em Ourense, o trecho até Santiago é descrito por muitos autores como parte do Sanabrês. Ourense fica a 104 km de Santiago por estrada, e a distância a pé depende do traçado. As estatísticas de 2024 da Oficina mostram que 50% dos peregrinos da Via da Prata começaram justamente em Ourense, e 21% em Sevilha, e que 84% foram a pé e 14% de bicicleta.
Se o plano for aproveitar a cidade antes de caminhar, Ourense é a cidade das Burgas, fontes termais que saem a 60–68 °C, e tem ponte medieval, catedral do século XII e a zona velha. O painel da página de Ourense lembra que a cidade não tem aeroporto: o caminho prático é voar para Santiago ou Vigo e seguir de trem ou carro, de 1h a 1h30.
Lugo e o Primitivo
Lugo não fica no Caminho Português nem na Via da Prata. Lugo fica no Primitivo, o trajeto de Oviedo a Santiago, que a tradição atribui ao rei Afonso II, possivelmente o primeiro peregrino conhecido. O trajeto completo leva entre 10 e 15 dias a pé, e passa por Lugo antes de se juntar ao Caminho Francês em Melide.
Lugo tem 100.143 habitantes (INE 2025) e é a cidade mais antiga da Galiza, fundada em 25 a.C. como Lucus Augusti. A muralha romana, de 2.266 m de perímetro, está na lista de Patrimônio Mundial da Unesco, e o trecho do Primitivo que atravessa a cidade também. O Primitivo completo começa em Oviedo.
A Compostela, dia de chegada
Na Oficina del Peregrino (Rúa Carretas, 33, em Santiago), o registro é feito escaneando um QR, e o ticket de fila mostra o tempo de espera em tempo real. A Compostela só é entregue pessoalmente, a cada peregrino, e não por telefone nem por meios telemáticos. Em momentos de grande afluência, a Oficina avisa que não garante a entrega no mesmo dia. Fecha em 25 de dezembro e em 1.º de janeiro.
Perguntas frequentes
Quantos quilômetros preciso fazer para receber a Compostela?
Cem, a pé ou a cavalo, contínuos e por um caminho oficial; 200 de bicicleta. Se você começa fora da Espanha, o trecho contínuo em território espanhol não pode ser menor que 70 km.
Posso receber a Compostela mesmo sem motivação religiosa?
Não. A Oficina limita a Compostela a quem faz a peregrinação por motivo religioso ou espiritual. Para os demais, existe o Certificado de Distância, que registra os quilômetros e a rota.
Onde consigo a credencial morando no Brasil ou em Portugal?
Em instituições autorizadas pela catedral (paróquias, associações de Amigos do Caminho, albergues, confrarias) ou na própria Oficina, em Santiago. O site da Oficina tem uma seção sobre como obter a credencial fora da Espanha.
Lugo está no Caminho Português?
Não. Lugo fica no Caminho Primitivo, entre Oviedo e Santiago. O Caminho Português passa por Tui, Pontevedra e Padrón, e a Via da Prata, em sua variante galega, por Ourense.
Posso fazer o Caminho por etapas, em anos diferentes?
Pode, desde que as etapas estejam em ordem cronológica e geográfica. Se você faz só a distância mínima, deve carimbar no início e no fim de cada etapa, com data, no mesmo lugar em que parou.
Posso misturar dois Caminhos?
Não, segundo a Oficina: escolhe-se um caminho oficial e segue-se por essa mesma rota, sem alternar nem misturar.
- Oficina del Peregrino (Catedral de Santiago), La Compostela: requisitos, 100 km a pé, 200 km de bicicleta, registro presencial
- Oficina del Peregrino, La Credencial: o que é, onde se obtém, finalidades
- Oficina del Peregrino, Certificado de Distancia
- Oficina del Peregrino, estatísticas de peregrinos
- Wikipedia (en), Camino Portugués: rotas central e da costa, estatísticas de 2025 da Oficina del Peregrino
- Wikipedia (es), Caminos de Santiago de los Portugueses: rotas de Tui, costa e interior
- Wikipedia (es), Camino de Santiago Sanabrés: entroncamento com o Caminho Português do interior em Verín ou Ourense
- Wikipedia (es), Camino de Santiago de la Plata: Sevilha a Astorga e ramais
- Wikipedia (en), Via de la Plata: estatísticas de 2024, Ourense como ponto de partida mais usado
- Wikipedia (es), Camino Primitivo: Oviedo a Santiago via Lugo, 10 a 15 dias a pé
- Wikipedia (es), Orense e Lugo: distâncias, Muralha Romana e Unesco